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Roteiro Praia da Costa Nova

 

Praia Atlântica de areias douradas a perder de vista e paisagens da Ria em permanente mudança em função da luz, das marés e das estações do ano, a Costa Nova é assim descrita por um dos vultos da literatura portuguesa – Eça de Queiroz: “e eu considero esse um dos mais deliciosos pontos do globo. É verdade que estávamos lá em grande alegria e no excelente chalé Magalhães”. (Entre os seus, Cartas Íntimas, 15 de Julho, 1893) e "Apesar de ter retardado ontem o meu jantar até às nove da noite, não pude desbastar a minha montanha de prosa. Levar as provas para os  areais da Costa Nova, não é prático – ó homem prático! Há lá decerto a brisa, a vaga, a duna, o infinito e a sardinha – coisas essenciais para a inspiração – mas falta-me essa outra condição suprema: um quarto isolado com uma mesa de pinho”. (Carta a Oliveira Martins, 1884)

 

 

Não é possível compreender a história da praia da Costa Nova (e também da praia da Barra) sem antes saber como se processou a formação da Ria de Aveiro, que se estima ter-se iniciado apenas por volta do século X. Quatro a cinco séculos depois – no último quartel do séc. XIV a inícios do século XV, é bem provável que o processo da formação desta laguna estivesse já adiantado, encontrando-se diminuído o papel da corrente marítima litoral por via de sucessivos depósitos de areias, causa do abaixamento da maré e impedimento de que os rios Vouga, Águeda e Cértima desaguassem diretamente no Mar.

 

A prosperidade das cidades à beira Ria: Ílhavo, Aveiro, Murtosa, Estarreja e Ovar, entre outras, durante séculos, esteve diretamente relacionada com os períodos em que a comunicação das águas entre a laguna e o Mar – a “barra”, esteve aberta. Nos períodos em que os depósitos de areia impediam a saída das águas (já que não existiu uma barra permanente, artificialmente aberta, até inícios do século XIX), toda a região se ressentia: os campos, alagados de água que não escoava, impediam a agricultura, não se fazia o comércio marítimo nem a produção de sal e a insalubridade traduzia-se numa fácil propagação de doenças e elevada mortalidade. As populações pressionavam a Coroa mas só com a subida ao trono de D. José I e o impulso reformista do Marquês de Pombal, em meados do século XVIII se iniciaram as ações que virão a culminar, meio século depois, a 3 de abril de 1808, na abertura da Barra, obra de engenharia complexa, num contexto de ausência da Corte Portuguesa no Brasil e da eminente segunda invasão francesa a Portugal.


Uma vez aberta a Barra, tornou-se de imediato atrativa a fixação nessa “Costa Nova”, língua de areia que se estendia quase até à Vagueira e que, a sul da nova barra, se encontrava formada e, agora, estabilizada. Os pescadores ilhavenses, da laguna e da costa marítima, que se organizavam em companhas (ou campanhas) - agrupamentos de pescadores onde cada um participava com o seu trabalho e um pequeno capital aforrado, representando o seu quinhão (coordenados por um arrais), depressa aí se instalaram dedicando-se, entre outras artes de pesca, à xávega (técnica de arrasto onde se pratica o cerco ao peixe com uma rede que varre o fundo arenoso, disposta por uma característica embarcação a remos – a meia lua, ficando essa rede ligada a terra por cabos e sendo posteriormente puxada para terra com recurso a juntas de bois).

 

Aí erigiram uma pequena capela (em 1822), de madeira e coberta de junco. Simultaneamente, erigiram palheiros, armazéns de madeira para guardar as alfaias da pesca, inicialmente, e pernoitar, mais adiante, ou ainda armazéns de salga, para conservação do pescado. São estes Palheiros (e podem ainda ser vistos alguns nas suas cores e formas originais – em madeira, pintados, ou não, com as cores preto e vermelho ocre) que virão a constituir-se como a raiz arquitetónica dos coloridos palheiros riscados.

 

Em meados do século XIX já a Costa Nova era muito procurada pelas figuras da sociedade, local e nacional, nos meses estivais. O advento do liberalismo em Portugal conduzia à ascensão da burguesia e à valorização social do tempo de ócio e das férias, enquanto pausa na vida quotidiana, pautado também pela moda de “ir a banhos” e pelos passeios no campo, bem como pela defesa da prática de atividades desportivas. A Costa Nova, entre o Mar Atlântico e as calmas águas da Ria, corporizou fortemente esse novo espírito surgido a meados do século XIX, atraindo e moldando-se enquanto charmosa estância balnear, suportada numa dinâmica comunidade piscatória que, progressivamente, foi avançando” para sul. A estética dos palheiros, marcante e plenamente inserida nas modas europeias de frequência das praias, lembra padrões das barraquinhas de praia e dos trajes de banho da época.


José Estêvão foi um desses notáveis – parlamentar liberal, que adquiriu um palheiro na praia da Costa Nova e onde se reunia, no primeiro quartel do sec. XIX como figuras de proa das artes nacionais, associados ao movimento do realismo e à “Geração de Setenta”, como sejam Eça de Queirós, Guerra Junqueiro ou Oliveira Martins. No final da década de 40 deste século a procura dos veraneantes tinha também já conduzido à construção, a norte da Costa Nova, de grandes edifícios em adobe, verdadeiras mansões para a época. Estas edificações, algumas das quais podem ainda ser apreciadas, refletem os estilos arquitetónicos/decorativos da Arte Nova e, principalmente, do movimento que se lhe seguiu – o modernismo.


Em 1837 iniciam-se os festejos da Nossa Senhora da Saúde que, aos poucos, se torna uma das manifestações religiosas da região e 1845 é o ano de nascimento do mítico arrais Ançã que, em 1886, galharda e destemidamente, salva de afogamento, às garras do cão danado, como chamava ao Mar, trinta e um franceses e que, por tal feito, foi condecorado pelos governos francês e português (de D. Carlos). Na Costa Nova existiam, por esta altura – 1874, salas de teatro, locais de convívio e diversão onde, no verão, aconteciam festas, bailes, exposições, palestras mas também regatas e outras atividades…

 

Entretanto, na vizinha Praia da Barra, inicia-se o projeto de construção do farol, em 1885, pelo eng.º Paulo Benjamim Cabral e concluído pelo eng.º Maria de Melo e Mattos em 1893. É o mais alto farol português exibindo uma imponente torre cilíndrica, com 66 metros acima do nível do mar (62 metros de altura), onde se situa a principal componente do farol. A principal fonte luminosa era obtida por incandescência do vapor do petróleo.

 

Em 1889, na Costa Nova, é tomada a decisão de construir a Capela da Nossa Senhora da Saúde, em substituição da que existia na altura, em madeira, que ainda pode ser vista ao lado da Capela dedicada ao mesmo orago, maior e atual igreja matriz. Em 1898 fica completa a estrada que liga a Costa Nova à Praia da Barra, que encerra o conjunto de infraestruturas rodoviárias (e pontes) que liga, por via terrestre estas praias e as cidades de Ílhavo e Aveiro. Em meados do século XIX terão existido na Costa Nova um casino e dois cinemas. A Ria permitia a prática da canoagem e da vela tendo conduzido, inclusive, ao nascimento dos veleiros da classe Vouga, a partir de 1923. O Vouga é um barco de recreio e lazer e a única classe portuguesa de vela, ex-líbris náutico desta nova forma de encarar a vida, surgida pelas mãos do mestre António Ferreira Gordinho, inspirado em técnicas de vela portuguesa, nas grandes escunas norte-americanas (onde esteve emigrado por cerca de quatro anos) e também nos condicionalismos técnicos de navegação impostos pelo Canal de Mira da Ria de Aveiro.

 

 

O atual posto de turismo data de 1941 e a sua inicial função era servir de ancoradouro às embarcações que ali transportavam passageiros, principalmente em lazer, sendo conhecido como “Cais da Barca”. Nessa altura, a via marginal do Canal de Mira era apenas separada do casario por uma estrada e a ”pala” deste edifício funcionava com proteção, aos passageiros, do sol e da chuva. Um outro edifício emblemático da arquitetura do século XX é a Casa João Félix (1966).

 

2016 é o ano de inauguração do Cais Criativo - o mais descontraído e jovem espaço cultural municipal, que acolhe também o novo centro de saúde, um edifício-paisagem de autoria dos irmãos Nuno Mateus e José Mateus (ARX Portugal) com quatro temáticas de base: a retoma das técnicas de construção tradicional dos típicos "palheiros" desta praia, a pedagogia de construção sobre a duna, o edifício enquanto paisagem e parte da rota física e visual do caminho para o mar, pontuado por diversos passadiços de madeira, e, finalmente, a matriz morfológica e agrária da estrutura de apropriação da terra. É um edifício inteiramente em madeira, assente sobre betão, que procura fazer uma interpretação comtemporãnea da construção tradicional e típica desta carismática praia, aproveitando para proporcionar ao traseunte a possibilidade de usufruir da vista marítima a partir do telhado do edifício.

 

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Curiosidades:

 

  • A 13 de maio de 1809 dão entrada no Porto da Barra de Aveiro 39 navios de transporte com mantimentos e munições e um bergantim de guerra, provenientes de Inglaterra, em auxílio ao exército português, aquando da segunda invasão francesa.
  • Mesmo após a abertura da Barra, em 1808, a língua de areia que desta se estendia até à Vagueira, a “Costa Nova”, ficou até 1855 incluída administrativamente no Município de Ovar.
  • A designação “Costa Nova” – língua arenosa a sul da barra fixada em 1808, terá surgido por oposição à costa velha de S. Jacinto, local onde desde muito antes decorriam as atividades piscatórias. “Costa Nova do Prado” terá surgido por via da transformação dessa língua de areia, gradualmente, em viçosos terrenos férteis.

 

 
  • O veleiro da classe Vouga, com comprimentos fora a fora entre os 5,90 metros e os 6,30 metros (dependendo, segundo se dizia, do tamanho da garagem dos clientes do Mestre António Ferreira Gordinho) inclui caracteriza-se pelos seguintes aspectos visuais e técnicos: casco redondo e liso, sem qualquer linha quebrada ou aresta viva, painel de popa situado acima da linha de água e inclinado para a ré, roda de proa em forma de colher, conectando com a linha de quilha de forma contínua, convés corrido à volta do poço sendo este aberto à ré da enora a vante da madre do leme, muito baixo “calado” (cerca de 12 ou 15 cm) e patilhão em ferro, tipo leque em eixo fixo (Vaz, Mariana em Monografia da Classe Vouga: Uma embarcação de Recreio Portuguesa, 2013).
  • O Farol da Barra, na praia com o mesmo nome, sofreu grandes restaurações em 1929 e só em 1950 passou a ser alimentado por energia elétrica. A sua potente lâmpada projeta um feixe luminoso visível a 22 milhas náuticas de distância (cerca de 40 quilómetros).

 

Sugestões: